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Nova York, 22 de setembro de 2026 — Diante de representantes dos 193 Estados-membros das Nações Unidas, Luiz Inácio Lula da Silva voltou nesta terça-feira à mais simbólica tribuna da diplomacia mundial com um pronunciamento que conectou guerras, soberania, desigualdade, democracia, mudanças climáticas, trabalho, crime organizado e o poder crescente das grandes empresas de tecnologia.

Foi a décima ocasião em que Lula abriu o Debate Geral da Assembleia Geral da ONU.

O Brasil tradicionalmente ocupa a primeira posição entre os Estados-membros desde 1955, antes do pronunciamento do país anfitrião, os Estados Unidos.

A 81ª sessão acontece sob o tema “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.

Mais do que apresentar uma relação de ações de governo, Lula construiu seu discurso em torno de uma questão essencial da política internacional contemporânea: quem deve definir os destinos das nações — seus povos ou as potências que concentram poder econômico e militar?

Foi nesse contexto que pronunciou uma das frases que sintetizaram sua passagem pela ONU em 2026:

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”

A declaração surgiu no trecho dedicado à América Latina, em uma crítica à retomada de zonas de influência, intervenções externas e ingerências sobre processos políticos da região.

A ONU diante da crise do próprio multilateralismo

Lula iniciou seu pronunciamento com uma avaliação severa do sistema internacional.

Segundo o presidente, este é o momento mais crítico vivido pelas Nações Unidas desde sua primeira participação na tribuna, em 2003.

O centro da crítica foi o Conselho de Segurança, especialmente a concentração de poder nas cinco potências com assento permanente e direito de veto.

A posição não é nova na diplomacia brasileira.

Há décadas o país sustenta que a configuração criada depois da Segunda Guerra Mundial já não representa adequadamente a distribuição política, populacional e econômica do século XXI.

A própria conjuntura da 81ª Assembleia reforça o diagnóstico de crise institucional.

A ONU reúne-se em meio a guerras prolongadas, tensões no Oriente Médio, conflito entre Rússia e Ucrânia, disputas comerciais, corrida tecnológica e questionamentos sobre a capacidade das instituições multilaterais de produzir respostas efetivas.

Lula contrapôs a diplomacia à política baseada exclusivamente na força militar.

A diplomacia é a única opção.

Em outro momento, ao discutir as características exigidas das lideranças capazes de ultrapassar conflitos históricos, sintetizou:

“Isso é o que se espera de um Estadista.”

Na sequência, mencionou Yasser Arafat e Yitzhak Rabin, protagonistas das negociações que resultaram nos Acordos de Oslo, como exemplos de líderes que desafiaram antagonismos históricos para buscar uma saída política para o conflito entre israelenses e palestinos.



Gaza, Hamas, Ucrânia e a defesa da solução política

No Oriente Médio, Lula voltou a condenar a devastação provocada pelas operações israelenses em Gaza e responsabilizou o governo de Benjamin Netanyahu pelo sofrimento da população palestina.

Ao mesmo tempo, condenou expressamente os atos terroristas praticados pelo Hamas contra civis israelenses.

A formulação permitiu ao presidente sustentar dois princípios simultaneamente: a responsabilização pelos ataques terroristas de 7 de outubro e a crítica às consequências humanitárias da ofensiva israelense.

Lula também defendeu a solução de dois Estados e criticou a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia.

Sobre Rússia e Ucrânia, reiterou que uma guerra prolongada dificilmente produzirá uma solução exclusivamente militar e voltou a defender negociação diplomática.

O pronunciamento colocou o Brasil, mais uma vez, na defesa de uma política externa baseada em negociação, não intervenção e solução multilateral das controvérsias.

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”

Foi no capítulo latino-americano que Lula empregou uma das formulações politicamente mais contundentes da manhã.

Ao rejeitar a divisão do planeta em áreas de influência das grandes potências, vinculou soberania territorial a soberania política, econômica e eleitoral.

O presidente afirmou que venezuelanos devem decidir o próprio futuro, criticou as restrições à oposição na Nicarágua, mencionou a situação do Haiti e voltou a condenar o embargo contra Cuba.

O discurso ocorreu em meio a uma relação delicada entre Brasília e Washington e a apenas doze dias da eleição brasileira de 4 de outubro.

Por isso, é necessário separar duas dimensões da fala.

A primeira é diplomática: o Brasil reivindica autonomia e se posiciona contra intervenções externas.

A segunda é doméstica e eleitoral: Lula utilizou parte do pronunciamento para dirigir mensagens diretamente à sociedade brasileira.

A Folha de S.Paulo observou que a fala continha forte componente eleitoral, especialmente no trecho final referente à soberania e às eleições.

Essa distinção é necessária para compreender o discurso em sua integralidade.

Segurança: cooperação internacional sem transferência de soberania

O crime organizado também ganhou espaço incomum para um pronunciamento brasileiro na ONU.

Lula reconheceu a gravidade das organizações criminosas e defendeu maior integração entre países contra lavagem de dinheiro, tráfico de armas e circulação internacional de recursos ilícitos.

Ao mesmo tempo, rejeitou a ideia de que o enfrentamento da criminalidade possa justificar intervenção estrangeira no território ou nas águas brasileiras.

O argumento foi construído sobre uma diferença fundamental: cooperação não significa tutela.

Segundo Lula, o país precisa de compartilhamento de inteligência, repressão financeira e controle do fluxo internacional de armas e dinheiro, e não da transferência da responsabilidade brasileira pela segurança de suas fronteiras.

Meio ambiente, Amazônia e transição energética

A agenda ambiental apareceu associada ao desenvolvimento econômico.

Lula afirmou que o Brasil pretende avançar na descarbonização sem abrir mão do direito de explorar de forma soberana seus recursos naturais e minerais estratégicos.

O presidente também destacou a redução do desmatamento.

Dados oficiais do INPE mostram que, entre agosto de 2025 e maio de 2026, os alertas de desmatamento na Amazônia caíram 37,5%, atingindo o menor valor da série histórica para esse período.

Em junho de 2026, os alertas apresentaram nova redução de 35% na comparação anual.

Ao tratar de minerais críticos e terras raras, Lula apresentou uma tese que tende a ganhar relevância na geopolítica das próximas décadas: países detentores desses recursos não deveriam limitar-se à exportação da matéria-prima, mas exigir industrialização, geração de valor, transferência tecnológica e benefícios econômicos internos.

É uma formulação associada à busca do Sul Global por maior participação nas cadeias de valor da transição energética.

Inteligência Artificial, Big Techs, Pix e apostas

Outro núcleo particularmente contemporâneo do discurso foi o poder das plataformas digitais.

Lula defendeu regulamentação internacional das Big Techs e da inteligência artificial e criticou a concentração de poder tecnológico em poucas empresas.

O tema também aparece na própria agenda das Nações Unidas.

Na abertura da Assembleia, o secretário-geral António Guterres defendeu mecanismos multilaterais para governança da inteligência artificial e supervisão dos riscos trazidos pela tecnologia.

No plano brasileiro, Lula relacionou esse debate à proteção de crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital, à remuneração de criadores e à soberania sobre infraestruturas digitais.

O Pix foi apresentado como exemplo dessa autonomia.

O presidente rejeitou eventuais pressões para modificar seu caráter de infraestrutura pública de pagamentos.

Também voltou sua crítica às apostas on-line, associando a expansão das bets ao endividamento e à desestruturação de famílias brasileiras.



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Trabalho e o fim da escala 6×1 chegam à ONU

Em uma das passagens de maior conteúdo social, Lula levou ao plenário das Nações Unidas o debate brasileiro sobre jornada de trabalho.

Defendeu dois dias semanais de descanso e relacionou o fim da escala 6×1 à possibilidade de trabalhadores disporem de mais tempo para convivência familiar, qualificação e descanso.

A proposta não ficou restrita ao discurso presidencial.

Em abril de 2026, o governo encaminhou ao Congresso projeto para reduzir a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, garantindo dois dias de descanso remunerado.

A questão trabalhista integra uma concepção mais ampla defendida por Lula no discurso: crescimento econômico não deveria ser medido apenas pela expansão do Produto Interno Bruto, mas também pela distribuição de renda, oportunidades e condições de vida.

Trata-se de um ponto claramente associado à tradição social-democrata e progressista que orienta parte relevante da trajetória política do presidente.

O Brasil e o investimento estrangeiro: uma correção necessária

Ao apresentar indicadores econômicos, Lula afirmou que o Brasil seria atualmente o terceiro maior destino mundial de investimento estrangeiro direto.

O dado mais recente disponível da ONU Comércio e Desenvolvimento — UNCTAD, contudo, coloca o Brasil em quinto lugar mundial em 2025, atrás de Estados Unidos, Singapura, Hong Kong e China.

O país recebeu aproximadamente US$ 77 bilhões em investimento estrangeiro direto no ano, crescimento de 23% e resultado suficiente para mantê-lo entre os cinco principais destinos globais.

A diferença não elimina a relevância do desempenho brasileiro, mas a correção é necessária para preservar a precisão factual.

Uma trajetória que ultrapassou as fronteiras brasileiras

Independentemente das avaliações favoráveis ou críticas a seus governos, Lula acumulou ao longo de mais de duas décadas uma presença incomum na diplomacia internacional brasileira.

Sua participação em 2026 foi a décima abertura do Debate Geral da ONU: anteriormente, havia ocupado a tribuna em 2003, 2004, 2006, 2007, 2008, 2009, 2023, 2024 e 2025.

A Folha observa que ele está entre os chefes de Estado que mais vezes participaram da Assembleia Geral.

A projeção política internacional de Lula também pôde ser observada na agenda que antecedeu o discurso.

Na segunda-feira, 21, o presidente reuniu-se com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. Durante o encontro, Mamdani afirmou ao brasileiro:

“O senhor foi nossa inspiração.”

O prefeito mencionou especialmente políticas brasileiras de combate à pobreza e defesa dos trabalhadores.

Reuters e UOL registraram o encontro e a aproximação política entre os dois líderes.

Não se trata de estabelecer uma classificação objetiva entre estadistas — algo que pertence ao campo da interpretação política e histórica —, mas de reconhecer um dado verificável: poucos presidentes brasileiros construíram exposição diplomática internacional comparável à acumulada por Lula ao longo de seus mandatos.

Eleições aparecem no encerramento

Nos minutos finais, o discurso internacional encontrou-se diretamente com a política doméstica.

Lula lembrou que os brasileiros voltarão às urnas em 4 de outubro de 2026 e afirmou confiar no sistema eleitoral, na imprensa livre e na fiscalização da sociedade.

Foi nesse ponto que declarou:> “A democracia brasileira pertence aos brasileiros.

E encerrou a mensagem sobre soberania afirmando que o país continuará seguindo seu próprio caminho democrático.

A passagem não pode ser dissociada do calendário eleitoral.

Lula disputa novo mandato, e veículos brasileiros identificaram no pronunciamento referências evidentes à disputa política interna e às tensões externas que atravessam a campanha.

O contexto eleitoral, entretanto, não esgota o significado do pronunciamento.

Mais que um discurso de governo

Ao longo de aproximadamente duas décadas de presença na ONU, alguns temas permanecem recorrentes na atuação internacional de Lula:

• combate à fome e à desigualdade,

• maior participação dos países em desenvolvimento,

• reforma do Conselho de Segurança,

• fortalecimento das instituições multilaterais e

• defesa da autonomia política do Brasil.

Em 2026, esses temas ganharam novos componentes.

• Inteligência artificial,

• Big Techs,

• minerais estratégicos,

• apostas digitais,

• crime organizado transnacional,

• soberania tecnológica e

• redução da jornada de trabalho entraram na mesma arquitetura argumentativa.

O resultado foi um pronunciamento que procurou conectar problemas aparentemente distintos a uma pergunta comum: como preservar democracia, soberania e direitos humanos em um sistema internacional cada vez mais condicionado pela concentração de poder militar, econômico e tecnológico?

Pode-se concordar ou discordar das respostas oferecidas por Lula.

Essa é a essência da democracia.

Mas sua décima passagem pela abertura da Assembleia Geral registra um fato político maior: aos 80 anos da ONU, enquanto a instituição enfrenta uma crise de capacidade e representatividade, o Brasil voltou a utilizar sua primeira fala perante o mundo para reivindicar reforma da governança global e maior espaço político para países que historicamente permaneceram longe dos centros de decisão.

O discurso de 22 de setembro de 2026 deverá ser analisado também à luz da eleição brasileira que ocorrerá poucos dias depois.

Mas limitar seu significado exclusivamente ao calendário eleitoral seria ignorar sua dimensão internacional.

Da reforma da ONU ao conflito em Gaza; da guerra na Ucrânia ao futuro da América Latina; da inteligência artificial às relações de trabalho; da Amazônia à soberania econômica, Lula apresentou uma visão de mundo baseada na ideia de que força sem legitimidade não produz estabilidade duradoura e de que soberania nacional e cooperação internacional não precisam ser conceitos contraditórios.

Em uma Assembleia marcada justamente pelo debate sobre como “restaurar a confiança” no sistema multilateral, essa foi a mensagem que o Brasil decidiu colocar diante do mundo.

Fontes: Presidência da República/Secom; Organização das Nações Unidas (ONU/ONU Brasil); UNCTAD; Reuters; Agência Brasil; Poder360; Folha de S.Paulo e UOL.

Imagens ilustrativas: Divulgação IA, produzidas a partir de referências visuais institucionais da ONU e cobertura jornalística do evento.

INFORMAÇÃO COM CONTEXTO – Tabloide 360

por Humberto Brassioli Corsi – Redator Chefe


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