Não era mentira.

Mas também não era toda a verdade.

Eu era umbandista.

Frequentava terreiro, acreditava naquilo que vivia ali e reconhecia naquela religião uma parte importante de quem eu era.

Ainda assim, dizer simplesmente “sou umbandista” parecia difícil.

Havia outra situação que hoje me faz pensar ainda mais.

Quando estava no terreiro usando minhas guias e precisava sair para ir a algum lugar, eu as tirava antes de ir para a rua.

Dentro do terreiro, faziam parte de mim.

Do lado de fora, eu as escondia.

Durante algum tempo, não percebi a contradição.

Até compreender algo que hoje parece óbvio:eu não tinha nada do que me envergonhar.

A pergunta que veio depois foi mais difícil:por que, então, eu tinha vergonha?

Eu não escondia minha fé de mim.

Talvez essa seja uma das consequências mais silenciosas do preconceito.

Nem sempre ele aparece na forma de uma agressão, de uma ofensa ou de um ataque a um terreiro.

Às vezes, ele produz algo muito mais sutil.

Faz com que passemos a organizar a nossa própria vida em função do olhar do outro.

Eu não havia deixado de acreditar na Umbanda.

Não tinha vergonha daquilo que vivia dentro do terreiro.

Não duvidava da minha fé.

Mas, quando atravessava o portão, alguma coisa mudava.

A guia saía do pescoço.

“Umbanda” virava “espiritualidade”.

Eu não escondia minha fé de mim.

Eu escondia minha fé dos outros.

E talvez seja justamente aí que o preconceito alcance uma de suas consequências mais profundas: quando o olhar de quem está fora começa a determinar quais partes de nós podemos mostrar.

O peso do olhar do outro.

Hoje consigo compreender melhor aquele comportamento.

Não era simplesmente vergonha.

Havia também medo do julgamento.

Do comentário.

Da piada.

Da associação imediata com alguma coisa negativa.

Talvez até do impacto profissional.

Eu sou advogado.

Dizer “sou advogado” nunca exigiu de mim maiores explicações, mas dizer “sou umbandista” frequentemente parecia abrir uma segunda conversa.

E isso diz muito mais sobre a sociedade do que sobre a Umbanda.

Por que determinadas identidades são imediatamente reconhecidas como legítimas enquanto outras ainda parecem precisar ser explicadas?

Por que um símbolo religioso pode ser recebido com naturalidade e outro despertar desconfiança?

Por que alguém deveria precisar escolher cuidadosamente o ambiente antes de dizer qual religião professa?

Não faço essas perguntas para estabelecer uma disputa entre crenças.

Faço porque durante muito tempo eu próprio fiz essa escolha.

Escolhi o momento.

Escolhi as palavras.

Escolhi quem poderia saber.

E, durante algum tempo, escolhi até quando minha guia poderia aparecer.

Discrição não é invisibilidade.

Existe, evidentemente, uma dimensão íntima na fé.

Nem tudo precisa ser exposto.

Nem toda experiência espiritual precisa ser compartilhada.

A Umbanda também não precisa disputar fiéis ou convencer alguém de que seu caminho é melhor.

Mas existe uma diferença enorme entre preservar aquilo que é íntimo e esconder aquilo que somos por medo do julgamento.

Discrição não é invisibilidade.

Essa diferença demorou para ficar clara para mim.

Porque, quando um comportamento se repete durante muito tempo, ele começa a parecer natural.

Tirar a guia antes de sair parecia apenas uma escolha.

Dizer que era espiritualista parecia apenas uma maneira mais simples de responder.

Até perceber que havia uma pergunta escondida por trás dessas escolhas:de quem exatamente eu estava tentando me proteger?

E, talvez mais importante:por que a minha religião precisava ser escondida para que eu me sentisse protegido?

Um dia eu parei de tirar a guia.

Não sei precisar quando aconteceu.

Não houve uma grande revelação.

Foi um processo.

Em algum momento, simplesmente compreendi que não fazia sentido viver uma fé dentro do terreiro e escondê-la quando atravessava o portão.

A guia deixou de ser algo que eu precisava retirar para ir à rua.

E “espiritualista” deixou de ser a palavra que eu utilizava quando, na verdade, queria dizer outra coisa.

Sou umbandista.

Hoje sou também dirigente espiritual de um terreiro.

E talvez justamente por ter vivido os dois lados eu compreenda quem ainda hesita.

Não julgo quem esconde sua guia.

Não julgo quem prefere não dizer sua religião no trabalho.

Não julgo quem, quando perguntado, ainda responde apenas “sou espiritualista”.

Eu fiz isso.

E sei que, infelizmente, assumir uma identidade religiosa ainda pode trazer consequências reais para algumas pessoas.

Por isso, não se trata de exigir que alguém exponha sua fé.

Trata-se de construirmos uma realidade em que ninguém precise escondê-la.

Quando deixamos de pedir licença para existir.

Há algo que tenho aprendido na Umbanda: assumir quem somos não exige diminuir quem é diferente de nós.

Posso respeitar profundamente a fé do outro sem esconder a minha.

Posso reconhecer outros caminhos sem abandonar o meu.

E posso usar minha guia sem que isso represente uma provocação a quem não compartilha daquilo em que acredito.

Talvez tenhamos passado tempo demais acreditando que, para sermos respeitados, precisávamos nos tornar menos visíveis.

Hoje penso exatamente o contrário.

O respeito verdadeiro começa quando diferentes identidades podem ocupar o mesmo espaço sem que uma delas precise desaparecer.

Não quero que ninguém esconda sua fé para que eu possa mostrar a minha.

Quero apenas que mostrar a minha também seja natural.

A guia nunca foi o problema.

Hoje, olhando para trás, percebo que a mudança não aconteceu na minha religião.

A Umbanda continuava sendo a mesma.

A guia também.

Quem mudou fui eu.

O problema nunca esteve na guia que eu retirava do pescoço.

Estava no medo que eu tinha do olhar de quem a veria.

E quando finalmente compreendi isso, alguma coisa mudou na maneira como passei a ocupar o meu lugar.

Hoje posso dizer que sou advogado.

Posso dizer que sou dirigente espiritual.

Posso dizer que sou Pai de Santo.

E posso simplesmente dizer:sou umbandista.

Nenhuma dessas dimensões precisa esconder a outra.

Talvez seja esse o ponto.Durante muito tempo, esconder foi para muitos uma forma de proteção — e para alguns ainda é.

Mas precisamos trabalhar para construir uma sociedade em que mostrar quem somos não seja um ato de coragem.

Que seja apenas natural.

Porque respeitar a fé do outro é fundamental.

Mas talvez exista um aprendizado anterior que muitos de nós ainda precisemos fazer:respeitar a nossa própria fé o suficiente para não termos vergonha de dizer quem somos.

Ricardo Cattan

Advogado – Almeida Prado Cattan Advocacia

e Dirigente Espiritual do TUVLA – Templo de Umbanda Vô Lázaro de Aruanda

Tabloide 360 – Informação com Contexto

por Humberto Brassioli Corsi – Redator Chefe


Veja Também…



Compartilhar.
Deixe Uma Resposta

Português do Brasil
Exit mobile version