SCPI estreia com 58 pontos e revela paradoxo nas cadeias de suprimentos: empresas ampliaram indicadores e ferramentas de análise, mas capacitação, integração de sistemas e qualidade dos dados ainda limitam decisões.

Medir não significa necessariamente gerir.

Essa é uma das principais conclusões da primeira edição do SCPI — Supply Chain Performance Index, levantamento desenvolvido pela Live University | INBRASC para avaliar como empresas estruturam, acompanham e utilizam indicadores de desempenho em suas cadeias de suprimentos.

O estudo atribuiu ao Supply Chain pesquisado 58 pontos em uma escala de zero a 100, resultado que enquadra a gestão no nível “Estruturada”, o terceiro entre cinco estágios de maturidade.

Apesar do avanço na utilização de indicadores, 53% das empresas ainda não chegaram ao que o levantamento considera uma gestão efetiva dos KPIs.

Na prática, significa que boa parte das organizações já mede o que acontece, mas ainda encontra dificuldades para transformar essas informações em capacidade sistemática de corrigir desvios ou antecipar problemas.

Entre as empresas que efetivamente agem sobre os resultados, 43% apresentam gestão corretiva e apenas 4% alcançam o estágio preditivo.

Custo está no centro das atenções

O indicador considerado mais importante pelos participantes é o Custo Logístico sobre Receita, mencionado por 59% dos respondentes.

Na sequência aparecem OTIF — entregas completas e dentro do prazo — e Lead Time entre pedido e entrega, ambos com 47%, além da Acurácia da Previsão de Demanda, com 45%, e da Acurácia de Estoque, com 43%.

O levantamento mostra, portanto, uma gestão fortemente concentrada no equilíbrio entre custo, eficiência operacional e nível de serviço.

As áreas de Supply Chain acompanham, em média, sete KPIs.

Entretanto, o estudo identifica um ponto particularmente relevante: o maior avanço de maturidade acontece quando a empresa passa a trabalhar com pelo menos quatro indicadores.

A maturidade média salta de 42 para 63 pontos a partir de quatro KPIs, mas praticamente deixa de crescer quando o número supera dez indicadores.

A conclusão contraria a ideia de que quanto mais métricas existirem, melhor será a gestão.

O ganho parece estar menos na quantidade de indicadores e mais na existência de um conjunto suficientemente abrangente para orientar decisões.

Tecnologia avançou, mas planilhas continuam presentes

Outro retrato significativo aparece na infraestrutura utilizada para acompanhar os indicadores.

Mesmo em empresas de maior porte, 63% ainda utilizam planilhas no monitoramento dos KPIs.

Ao mesmo tempo, 61% trabalham com BI integrado e 57% utilizam ferramentas de BI sem integração.

A inteligência artificial também começa a ocupar espaço: 56% dos participantes mencionaram IA generativa como apoio à gestão dos indicadores.

Por outro lado, 31% ainda não utilizam inteligência artificial, enquanto aplicações mais sofisticadas permanecem restritas: somente 6% mencionaram agentes de IA e outros 6% utilizam IA preditiva.

O cenário sugere uma transição tecnológica ainda incompleta: ferramentas mais modernas convivem com estruturas tradicionais de controle e bases de dados que nem sempre estão preparadas para análises avançadas.

Empresas olham mais para dentro do que para o mercado

A forma como as metas são estabelecidas também chamou atenção.

Sete em cada dez empresas utilizam metas internas como referência, enquanto 59% consideram o histórico de resultados.

Somente 33% utilizam benchmarks externos para determinar seus objetivos.

Isso significa que uma empresa pode saber se melhorou em relação ao próprio passado, mas não necessariamente se alcançou um desempenho competitivo em relação ao mercado.

O próprio SCPI procura preencher parte dessa lacuna ao oferecer referências comparativas para indicadores como OTIF, custo logístico, ruptura, Fill Rate, acurácia de estoque e Lead Time.



Onde está a maior dificuldade?

Apesar da crescente digitalização, o principal obstáculo identificado pelo estudo não é propriamente tecnológico.

A capacitação das equipes, mencionada por 57% dos participantes, lidera a relação de barreiras para melhorar a gestão dos KPIs.

Depois aparecem sistemas legados e dificuldades de integração, com 49%, qualidade dos dados e complexidade operacional, ambas com 45%.

A mesma capacitação aparece, curiosamente, como o principal fator capaz de elevar a maturidade da gestão.

Na sequência estão Dashboards e BI, citados por 51%, e cultura de dados, com 47%.

O levantamento reforça uma conclusão conhecida da transformação digital, mas nem sempre aplicada nas organizações: tecnologia, isoladamente, não resolve problemas de gestão.

Sem profissionais capazes de interpretar dados, sistemas integrados e informações confiáveis, novos softwares podem apenas produzir uma quantidade maior de indicadores.

Bom resultado nem sempre significa gestão mais madura

A conclusão mais contraintuitiva da pesquisa aparece na comparação entre maturidade e performance.

A hipótese inicial era que empresas com gestão mais sofisticada de indicadores apresentariam resultados operacionais superiores.

O estudo, porém, afirma ter encontrado correlação nula entre maturidade da gestão de KPIs e performance.

Isso não significa que indicadores sejam dispensáveis ou que sua gestão não tenha importância.

O resultado indica que o desempenho de uma cadeia de suprimentos depende também de fatores estruturais, especialmente setor de atuação e modelo de negócio.

Serviços e Comércio, por exemplo, apresentaram referências diferentes de Indústria e Agropecuária para indicadores como OTIF e Lead Time.

Performance apresenta resultados relevantes

Mesmo diante das limitações de maturidade, parte relevante das empresas registra bons resultados operacionais.

Segundo o SCPI:

52% trabalham com custo logístico equivalente a até 5% da receita;

48% registram ruptura de estoque de até 2%;

49% apresentam acurácia de estoque superior a 98%;

39% alcançam OTIF acima de 93%;

43% apresentam SLA superior a 95%, e

88% das áreas internas demonstram satisfação com Supply Chain, considerando notas quatro ou cinco.

Um dos pontos mais frágeis aparece na previsão de demanda: somente 24% conseguem acurácia superior a 90%.

O desafio agora é transformar informação em decisão

O conjunto dos resultados aponta para uma mudança de estágio na gestão de Supply Chain.

Depois de anos voltados à criação de indicadores, implantação de ERPs, dashboards e ferramentas de Business Intelligence, o próximo desafio parece ser menos “medir mais” e mais “decidir melhor”.

O SCPI sugere que as empresas já acumulam uma quantidade considerável de informações operacionais.

A diferença competitiva tende a surgir na capacidade de transformar essas informações em diagnóstico, decisão e antecipação.

Em outras palavras: o problema deixou de ser simplesmente enxergar os números. O desafio é saber o que fazer com eles.

Sobre o levantamento

O SCPI — Supply Chain Performance Index é desenvolvido pela área de Market Insights da Live University | INBRASC e chega à primeira edição em 2026.

A coleta foi realizada em agosto de 2026.

A amostra é composta predominantemente por organizações de maior porte: 62% possuem receita superior a R$ 300 milhões e 52% faturam mais de R$ 1 bilhão.

Também existe concentração geográfica, com 78% dos participantes localizados na Região Sudeste, enquanto 73% dos respondentes ocupam cargos de direção ou gerência.

Por essa composição, os resultados devem ser interpretados principalmente como um retrato das práticas adotadas pelas empresas representadas na pesquisa, e não como uma fotografia estatística de todas as organizações brasileiras.

Fonte: SCPI — Supply Chain Performance Index, 1ª edição, 2026 — Live University | INBRASC.

Tabloide 360 – Informação com Contexto

por Humberto Brassioli Corsi – Redator Chefe



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