Há alguns meses, uma menina de quatro anos participou de uma atividade escolar sobre cultura afro-brasileira.
Depois de ouvir uma história, escolheu desenhar Iansã.
Para uma criança, talvez tenha sido apenas isso: conhecer uma história, encontrar nela algo que despertou sua atenção e colocá-lo no papel.

O problema começou depois, com os adultos.
O episódio, ocorrido em uma escola municipal de São Paulo, ganhou repercussão depois que o pai da criança contestou a atividade e acionou a Polícia Militar, que compareceu à unidade escolar.
O caso ultrapassou os muros da escola e trouxe uma pergunta que diz muito sobre nós:
Em que momento uma criança aprende que Iansã deve ser vista com estranhamento?
Porque ninguém nasce intolerante.
Ninguém nasce acreditando que o som de um atabaque representa perigo.
Ninguém nasce associando uma guia, uma roupa branca ou uma manifestação religiosa afro-brasileira a algo negativo.
Ninguém nasce acreditando que Exu é o diabo ou que Pombagira é prostituta.
Esses significados são aprendidos.
E, se o preconceito pode ser aprendido, o conhecimento talvez seja uma das ferramentas mais importantes para não transmiti-lo.
O QUE É ESTRANHO?
Talvez devêssemos começar pela própria ideia do que consideramos “normal”.
Eu pertenço a uma geração em que ser canhoto podia ser tratado como algo a ser corrigido.
Quando criança, chegaram a amarrar minha mão para que eu escrevesse com a direita.
Hoje isso parece difícil de compreender.
Mas havia uma lógica por trás: aquilo que escapava do padrão era estranho — e aquilo que era estranho precisava ser corrigido.
Quantas vezes não fazemos o mesmo com a cultura, com a religião e, principalmente, com o outro?
O diferente se torna estranho.
O estranho, quando não é conhecido, pode provocar medo.
E o medo, alimentado pela ignorância, facilmente se transforma em preconceito.
Talvez o problema nunca tenha estado naquilo que era diferente, mas no olhar de quem decidiu que somente o seu jeito de existir era normal.

CONHECER A PRÓPRIA HISTÓRIA
Em 2003, a Lei nº 10.639 alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional para incluir a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira no currículo dos estabelecimentos de ensino fundamental e médio.Cinco anos depois, a Lei nº 11.645 ampliou esse conteúdo, incluindo também a história e a cultura dos povos indígenas.
Não se trata de ensinar uma religião.
Não se trata de transformar escolas em espaços de catequese, conversão ou defesa desta ou daquela crença.
Trata-se de algo muito mais elementar:
Conhecer o Brasil.
Não é possível compreender plenamente a formação de nosso país apagando a contribuição dos povos africanos, afro-brasileiros e indígenas para nossa língua, nossa música, nossa alimentação, nossos costumes, nossas relações sociais, nossa espiritualidade e nossa maneira de enxergar o mundo.
Quando retiramos essas histórias da formação de uma criança, não deixamos simplesmente um espaço vazio.
Esse espaço pode acabar preenchido por estereótipos.
Ailton Krenak tem provocado importantes reflexões sobre memória, ancestralidade, território e pertencimento.
“Conhecer nossas raízes não significa permanecer preso ao passado. Significa possuir referências para compreender quem somos no presente”.
Talvez, portanto, ensinar a história e a cultura africana, afro-brasileira e indígena seja muito mais do que cumprir uma determinação legal.
É permitir que uma criança conheça o Brasil antes que alguém lhe ensine a ter preconceito contra uma parte dele.
O PRECONCEITO TAMBÉM ENTRA NO TERREIRO
Quando falamos de intolerância religiosa, é confortável imaginar que o preconceito está sempre do lado de fora.
Nem sempre está.
Nós também podemos reproduzir dentro de nossas religiões os preconceitos que recebemos da sociedade.
Durante muito tempo, em muitas casas de Umbanda, quando chegava o momento da chamada “gira de esquerda”, fechava-se ou cobria-se o congá.
Era uma prática vista com naturalidade.
Mas vale perguntar: o que estávamos dizendo, ainda que simbolicamente?
Por que Exu e Pombagira precisariam ser separados daquilo que consideramos sagrado?
Por que deveriam representar uma oposição a Oxalá, aos Caboclos ou aos Pretos Velhos?
Exu foi transformado em “diabo”.
Pombagira foi reduzida à imagem da “prostituta”.
Essas imagens dizem muito pouco sobre quem são essas entidades dentro da Umbanda e muito sobre os preconceitos construídos a respeito delas.
Ainda hoje é comum ouvirmos antes de determinados trabalhos:
“Essa gira vai ser pesada.
”Mas pesada por quê?
Existem trabalhos espirituais mais exigentes e situações humanas extremamente difíceis que chegam a uma casa religiosa.
Mas isso não transforma aqueles que trabalham nessas situações naquilo que estão tratando.
Exu não é a dificuldade que recebe.
Pombagira não é o sofrimento que acolhe.
São trabalhadores espirituais realizando aquilo que lhes cabe realizar.
Se queremos que a sociedade deixe de enxergá-los através das lentes do medo, talvez também precisemos observar se nós mesmos ainda não carregamos algumas dessas lentes para dentro de nossas casas.
Combater o preconceito exige também a coragem de reconhecer o preconceito que existe em nós.

E AS CRIANÇAS?
No terreiro que dirijo há muitas crianças.
E talvez uma das experiências mais bonitas seja observar a naturalidade com que elas convivem com aquilo que tantos adultos aprenderam a enxergar com estranhamento.
Elas ouvem os atabaques.
Veem as roupas brancas e as guias.
Conhecem os Caboclos, os Pretos Velhos, os Erês, os Boiadeiros, os Baianos, os Malandros, os Ciganos, Exus e Pombagiras.
E seguem sendo crianças.
Recebemos com frequência uma pergunta de pessoas que desejam conhecer a casa:
“Criança pode entrar?”
Sim. Pode.
Mas talvez exista uma pergunta anterior:
O que aprendemos sobre um terreiro para imaginarmos que uma criança precisaria ser protegida dele?
Naturalizar não é doutrinar.
Uma criança saber que existem diferentes religiões, culturas e maneiras de compreender o sagrado não significa obrigá-la a seguir qualquer uma delas.
Significa ensiná-la que o mundo não precisa ser igual a ela para merecer respeito.
Talvez nossa responsabilidade seja justamente não entregar às crianças os nossos medos como se fossem verdades.
ENCONTRAR GRANDEZA ONDE ENSINARAM A ENXERGAR INFERIORIDADE
Há algo especialmente simbólico nisso quando falamos de Umbanda.
A Umbanda construiu parte de sua identidade dando centralidade espiritual justamente a figuras, povos e identidades que a sociedade brasileira tantas vezes marginalizou, inferiorizou ou tentou silenciar.
O indígena, tantas vezes apagado de nossa história, apresenta-se como Caboclo e mestre.
O negro escravizado, que uma sociedade tentou desumanizar, manifesta-se como Preto Velho e conselheiro.
A criança é expressão do sagrado.Baianos, Boiadeiros, Malandros, Ciganos e tantas outras linhas carregam histórias e identidades de um Brasil que nem sempre encontrou espaço na narrativa oficial.
E aqueles que talvez tenham sofrido alguns dos maiores estigmas — Exu e Pombagira — ocupam seu lugar como Guardiões, não como representantes do mal.
Talvez exista aí uma das mensagens mais bonitas da própria Umbanda:
Encontrar dignidade e grandeza justamente onde tantas vezes ensinaram a sociedade a enxergar inferioridade.
DIFERENTES CAMINHOS PARA O SAGRADO
Na forma como compreendo a espiritualidade, Deus é uno.
Ao longo da história, diferentes povos, culturas e religiões construíram diferentes nomes, linguagens, símbolos, ritos e caminhos para se relacionar com o divino.
Para alguns, esse encontro acontece em uma igreja.
Para outros, em uma sinagoga, em uma mesquita, em um templo, na natureza ou em um terreiro.
As formas podem ser diferentes sem que precisemos transformá-las em oposição.
Há uma antiga e conhecida interpretação da palavra religião a partir da ideia latina de religare: ligar, estabelecer um vínculo com o divino.
Independentemente da tradição seguida, quando a espiritualidade nos conduz à caridade, à responsabilidade, ao acolhimento, ao respeito e à construção do bem, ela deveria nos aproximar — e não nos separar.
Nenhuma fé deveria servir de justificativa para o ódio.
Quando uma religião é utilizada para humilhar, perseguir, violentar ou retirar do outro o direito de existir, talvez o problema não esteja em Deus nem na religião que se diz professar, mas naquilo que o ser humano decidiu fazer em nome deles.
O QUE VAMOS ENSINAR À PRÓXIMA GERAÇÃO?
Voltemos à menina de quatro anos.
Ela ouviu uma história.
Conheceu Iansã.
E desenhou.
Antes da reação dos adultos, não havia conflito.
Havia apenas uma criança, uma história e um desenho.
Talvez isso seja o que mais deveria nos fazer pensar.
As Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 são importantes porque reconhecem que não podemos formar novas gerações contando apenas uma parte da história brasileira.
Mas nenhuma lei, sozinha, será capaz de desfazer séculos de preconceito.
Esse trabalho também precisa acontecer dentro de nossas casas, de nossas famílias, de nossas escolas, de nossas igrejas, de nossos templos, de nossos terreiros — e dentro de nós mesmos.
Talvez a pergunta não seja apenas como ensinar uma criança a respeitar aquilo que é diferente.
Talvez seja algo anterior:
Em que momento nós, adultos, ensinamos a ela que aquela diferença deveria ser um problema?
Se o preconceito também se aprende, temos uma escolha diante de cada nova geração.
Podemos transmitir nossos medos como se fossem verdades.
Ou podemos oferecer conhecimento suficiente para que nossas crianças construam suas próprias relações com o mundo.
Talvez educar para o respeito seja justamente isso:
Não entregar às crianças os nossos preconceitos como herança.

Ricardo Cattan
Advogado – Almeida Prado Cattan Advocacia
Dirigente Espiritual do TUVLA – Templo de Umbanda Vô Lázaro de Aruanda

