É inegável que determinadas tradições religiosas sofreram — e ainda sofrem — formas especialmente graves de preconceito e violência.
As religiões de matriz africana, por exemplo, carregam uma história marcada por perseguições, estigmatização e ataques aos seus espaços, símbolos e praticantes.
Reconhecer essa realidade é necessário.
Mas combater a intolerância religiosa exige que o nosso olhar vá além.
Ela pode atingir o umbandista, o candomblecista, o católico, o evangélico, o espírita, o judeu, o muçulmano e tantas outras expressões de fé.
Pode atingir também aquele que não professa religião alguma. E, talvez de maneira mais silenciosa, pode existir até mesmo entre pessoas que pertencem à mesma tradição religiosa.
Porque a intolerância começa muito antes da agressão física ou da ofensa explícita.
Ela começa quando acreditamos que, para a nossa fé ser verdadeira, a fé do outro precisa ser falsa.
Começa quando deixamos de dizer “eu acredito assim” e passamos a afirmar “somente assim se pode acreditar”.
Mesmo dentro de uma mesma religião existem diferentes formas de compreender o sagrado, diferentes tradições, escolas, ritos e maneiras de viver a espiritualidade.
Isso acontece no Cristianismo, no Judaísmo, no Islamismo, no Espiritismo e também na Umbanda.
Na Umbanda, por exemplo, encontramos casas com fundamentos, práticas e compreensões diferentes.
Essa diversidade não precisa ser vista como uma ameaça.
Uma casa não precisa diminuir o fundamento da outra para reconhecer o valor do seu próprio caminho.
Talvez esse seja um dos exercícios mais difíceis da verdadeira tolerância: compreender que respeitar não significa concordar.
Não precisamos compartilhar da crença do outro.
Não precisamos incorporar seus símbolos, seus ritos ou sua maneira de compreender Deus e o sagrado. Precisamos apenas reconhecer que o outro possui o mesmo direito que nós de buscar sentido, consolo, transformação e espiritualidade segundo sua própria consciência.
A liberdade religiosa não pode significar apenas “eu tenho o direito de professar a minha fé”. Ela necessariamente precisa significar também: “o outro tem o direito de professar a dele”.
E há ainda uma responsabilidade importante para aqueles que exercem alguma liderança religiosa.
Quanto maior a influência sobre uma comunidade, maior deve ser o cuidado com as palavras.
Líderes podem construir pontes, mas também podem construir muros.
Quando o púlpito, o altar, o terreiro, o templo ou qualquer espaço religioso é utilizado para desqualificar outras crenças, alimenta-se exatamente aquilo que a espiritualidade deveria ajudar a superar: o medo e a rejeição ao diferente.
Nenhuma religião precisa da destruição de outra para existir.
Talvez devêssemos falar menos sobre qual religião possui a verdade e mais sobre o que cada religião tem produzido na vida daqueles que a seguem.
Se a fé nos torna mais arrogantes, mais intolerantes e mais dispostos a julgar, alguma coisa merece ser revista.
Se, ao contrário, ela nos ensina responsabilidade, caridade, respeito, humildade e capacidade de convivência, então começa a cumprir uma de suas funções mais bonitas: aproximar pessoas sem exigir que sejam iguais.
O combate à intolerância religiosa, portanto, não pertence somente a uma religião ou a um grupo.
É responsabilidade de todos nós.
Porque uma sociedade verdadeiramente plural não é aquela em que todos acreditam na mesma coisa.
É aquela em que podemos acreditar de maneiras profundamente diferentes — e, ainda assim, sentar à mesma mesa, viver na mesma cidade, criar nossos filhos, trabalhar, discordar e continuar reconhecendo uns nos outros a mesma dignidade.
No fim, talvez a pergunta mais importante não seja em que o outro acredita.
Mas se somos capazes de respeitá-lo quando ele acredita diferente de nós.
Dirigente Espiritual doTUVLA – Templo de Umbanda Vô Lázaro de Aruanda
