Três artistas experientes, um camarim carregado de histórias e uma pergunta que ultrapassa os limites do palco: afinal, existe idade para continuar brilhando?

Em cartaz no Teatro Maria Della Costa, em São Paulo, o espetáculo “Camarim Drag Show” transforma o reencontro de três lendárias drag queens em uma comédia marcada por humor, emoção, rivalidades, confissões e reflexões sobre o etarismo no meio artístico.

A montagem acompanha Cassandra, interpretada por Valder Bastos, a TchaKa Drag Queen; Morgana, vivida por Jade Odara; e Frida, personagem de Regina Schazzitt.

Afastadas dos holofotes, elas voltam a se encontrar no camarim de uma boate para uma noite que poderá redefinir seus destinos dentro e fora dos palcos.

O texto de Chico Tomaz, sob direção de Carla Pagani, parte de um ambiente conhecido pelo público apenas em sua superfície.

É no camarim, longe das luzes principais, que maquiagens são refeitas, figurinos são ajustados, inseguranças aparecem e verdades cuidadosamente escondidas começam a ser reveladas.

Entre lembranças hilárias, sucessos inesquecíveis, fracassos memoráveis e histórias de bastidores, as três personagens percebem que o desafio daquele reencontro não está somente em retornar ao palco.

Elas precisam compreender como permanecer relevantes em um universo artístico transformado pelas redes sociais, pelos novos padrões de consumo e pela chegada de uma geração que constrói sua visibilidade por meio de curtidas, seguidores e visualizações.

Quando a experiência encontra uma nova geração

“Camarim Drag Show” utiliza a comédia para enfrentar uma discussão que ainda recebe pouca atenção: o envelhecimento dentro da própria comunidade artística e LGBTQIA+.

A expansão da cultura drag na televisão, nas plataformas digitais e nas redes sociais abriu caminhos importantes para novos talentos.

Entretanto, também tornou mais evidente uma lógica de mercado que frequentemente associa novidade à juventude, como se experiência, memória e longevidade fossem obstáculos para a continuidade de uma carreira.

É justamente contra essa invisibilidade que Cassandra, Morgana e Frida se levantam.

As personagens representam artistas que construíram suas trajetórias antes da popularização da internet, quando a arte drag ocupava principalmente boates, casas noturnas, bares, concursos, eventos e teatros.

Foram profissionais que conquistaram espaço em períodos nos quais assumir uma identidade artística dissidente exigia coragem não apenas para enfrentar o público, mas também o preconceito, a exclusão e diferentes formas de violência social.

O espetáculo não transforma esse debate em uma palestra.

A crítica aparece por meio das relações entre as personagens, das provocações, dos exageros, das disputas de vaidade e dos conflitos entre aquilo que foram, aquilo que ainda desejam ser e aquilo que o mercado espera delas.

O resultado é uma narrativa que diverte, mas também provoca uma reflexão incômoda: por que a sociedade celebra artistas quando estão no auge da exposição, mas frequentemente lhes vira as costas quando envelhecem?

Muito além das perucas e dos figurinos

A arte drag não pode ser reduzida à maquiagem, às perucas ou aos figurinos extravagantes.

Trata-se de uma linguagem artística construída a partir da interpretação, da música, da dança, da comédia, da presença cênica e da capacidade de dialogar diretamente com diferentes públicos.

Ao colocar três veteranas no centro da narrativa, “Camarim Drag Show” reivindica o reconhecimento daquelas que abriram caminhos para que uma nova geração pudesse existir com maior visibilidade.

O espetáculo não estabelece uma disputa simplista entre artistas antigas e jovens. Ao contrário, propõe uma conversa sobre convivência, renovação e preservação da memória.

Uma cena cultural saudável não precisa escolher entre tradição e novidade.

Pode reconhecer quem chegou agora sem apagar quem enfrentou as primeiras barreiras.

Essa perspectiva torna a montagem especialmente atual.

Em uma sociedade cada vez mais orientada pela velocidade das redes sociais, trajetórias inteiras podem ser ignoradas porque não cabem na duração de um vídeo curto.

O valor de uma artista, porém, não pode ser medido exclusivamente por algoritmos, engajamento ou número de seguidores.

Há conhecimentos que somente o tempo oferece.

Há histórias que precisam ser contadas por quem esteve presente. E há brilhos que não diminuem com a idade — tornam-se mais conscientes, intensos e carregados de significado.

Humor, amizade e resistência

Apesar da densidade dos temas, a principal linguagem da montagem é a comédia.

Cassandra, Morgana e Frida não são apresentadas como figuras intocáveis ou idealizadas. Elas possuem ego, contradições, mágoas e rivalidades. Disputam atenção, relembram acontecimentos sob perspectivas diferentes e utilizam a ironia como mecanismo de defesa.

O camarim transforma-se, assim, em território de reconciliação e confronto.

É onde as personagens retiram, simbolicamente, parte das máscaras utilizadas ao longo da carreira e passam a enxergar umas às outras para além da competição.

Por trás das gargalhadas, existe uma história sobre amizade, pertencimento e reinvenção.

As três artistas precisam decidir se permanecerão presas às frustrações do passado ou se encontrarão forças para ocupar novamente o espaço que ajudaram a construir.A pergunta que permanece até o momento de abertura da cortina é direta: quem realmente estará preparada para o espetáculo que acontece dentro e fora do palco?

Cultura também é permanência

Ao abordar o etarismo na arte drag, a montagem amplia uma discussão necessária sobre o direito de envelhecer com dignidade, reconhecimento e oportunidade.

O preconceito etário não se limita ao universo LGBTQIA+.

Ele está presente no mercado de trabalho, na televisão, na publicidade, na moda e em diferentes setores culturais.

Pessoas experientes são frequentemente tratadas como ultrapassadas, mesmo quando continuam plenamente capazes de criar, produzir e dialogar com a sociedade.

Para artistas LGBTQIA+, essa exclusão pode ser ainda mais severa.

Além do preconceito relacionado à idade, muitas enfrentam discriminações acumuladas por identidade de gênero, orientação sexual, expressão artística, origem social ou ausência de oportunidades institucionais.

Por isso, preservar a memória drag também é preservar parte da história cultural brasileira.

Antes que essa linguagem artística alcançasse programas de televisão, grandes campanhas publicitárias e milhões de visualizações nas redes sociais, inúmeras artistas mantiveram essa cultura viva em espaços independentes. Foram elas que criaram repertórios, linguagens, personagens e formas de resistência que hoje influenciam novas gerações.

“Camarim Drag Show” reconhece esse legado sem transformar suas protagonistas em peças de museu.

Cassandra, Morgana e Frida não desejam apenas ser homenageadas pelo que fizeram no passado.

Elas querem continuar trabalhando, criando e ocupando os palcos no presente.

Um convite para rir e refletir

Com texto de Chico Tomaz, direção de Carla Pagani e produção executiva de Xico Garcia, o espetáculo reúne uma equipe comprometida com uma montagem que combina entretenimento e relevância social.

A coreografia é assinada por Anderson Costa, o som por Clau Pereira e a iluminação por Junior Martins.

No elenco, a experiência e a personalidade cênica de Regina Schazzitt, Jade Odara e TchaKa Drag Queen conduzem uma história que celebra a amizade, a resistência e o poder de se reinventar por meio da arte.

Mais do que assistir a uma comédia, o público é convidado a entrar simbolicamente naquele camarim, conhecer as histórias escondidas atrás das cortinas e compreender que todo grande espetáculo é sustentado por trajetórias que raramente recebem o reconhecimento merecido.

Para quem procura uma experiência teatral divertida, emocionante e conectada aos debates contemporâneos, “Camarim Drag Show” oferece uma oportunidade de prestigiar três referências da cena drag em um encontro no qual o passado não representa despedida.

Representa experiência.

Porque tendências mudam, gerações se renovam e os palcos ganham novos formatos.

O verdadeiro brilho, entretanto, não possui data de validade.

🎭 Espetáculo: Camarim Drag Show

Temporada divulgada: Domingos, até 4 de outubro de 2026

Horário: 19h

📍 Local: Teatro Maria Della Costa

Endereço: Rua Paim, 72 – Bela Vista – São Paulo/SP

🎟️ Ingressos: Bilheteria Express

💰 Valores divulgados: De R$ 40 a R$ 80, acrescidos da taxa de serviço

Observação: A plataforma de vendas exibe atualmente sessões até 27 de setembro.

Recomenda-se consultar a disponibilidade e a confirmação da apresentação de 4 de outubro no momento da compra.

Ficha técnica

• Autor: Chico Tomaz

• Direção: Carla Pagani

• Produção executiva: Xico Garcia

• Coreografia: Anderson Costa

• Som: Clau Pereira

• Iluminação: Junior Martins

• Elenco: Regina Schazzitt – FridaJade Odara – Morgana Valder Bastos, TchaKa Drag Queen – Cassandra

• Perfil oficial: @camarimdragshow

por Humberto Brassioli Corsi – Redator Chefe


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