A Prefeitura de Vargem Grande Paulista firmou contrato milionário para aquisição de uniformes escolares que, à primeira análise, levanta dúvidas relevantes sobre economicidade e coerência com os princípios da administração pública.
O contrato nº 52/2025, firmado com a empresa HC Comércio e Serviços Ltda, prevê um investimento de aproximadamente R$ 2,97 milhões para fornecimento de itens básicos como bermudas, camisetas, calças, jaquetas e meias destinadas à rede municipal de ensino.

Até aqui, nada fora do padrão. O problema começa quando se observa o detalhamento dos valores unitários.
Valores que destoam da lógica de escala
Entre os itens contratados, alguns números chamam atenção:
• Meia escolar: R$ 11,37 (atacado)
• Jaqueta: R$ 108,50
• Calça em helanca: R$ 80,55
• Camiseta manga curta: R$ 37,80
A questão central não é apenas o valor isolado — mas o contexto: trata-se de compra em larga escala, via registro de preços, modelo que, em tese, deveria reduzir custos unitários.
No mercado comum, compras em volume costumam gerar economia significativa.
Em licitações públicas, esse princípio é ainda mais sensível, pois está diretamente ligado ao dever de economicidade.
No entanto, os números observados em Vargem Grande Paulista sugerem um cenário inverso: preços que se aproximam — ou até superam — valores de varejo, mesmo com quantidades que chegam a quase 18 mil unidades em alguns itens.
Histórico nacional reforça o alerta
Casos semelhantes já foram alvo de questionamento no Brasil. Em processos conduzidos pelo FNDE, por exemplo, houve cancelamento de licitação após identificação de preços até 211% acima do estimado, considerados “exorbitantes” para compras em grande escala
Além disso, estudos de tribunais de contas apontam que kits escolares chegaram a apresentar aumentos superiores a 140% acima do valor corrigido pela inflação, ferindo o princípio da economicidade, conforme Tribunal de Contas de São Paulo. Ou seja: não se trata de um debate isolado, mas de um padrão que, quando identificado, costuma gerar revisões, impugnações ou até cancelamentos.
Uniforme infantil com preço de adulto?
Outro ponto sensível está na natureza dos itens adquiridos.
Os uniformes são destinados a crianças da rede pública, na educação infantil — portanto, com modelagem reduzida, menor consumo de matéria-prima e, teoricamente, custo inferior.
Ainda assim, os valores apresentados se aproximam — e em alguns casos superam — peças equivalentes no mercado adulto.
Essa distorção levanta uma pergunta inevitável: Por que produtos infantis, adquiridos em escala industrial, estão sendo pagos como peças de consumo individual no varejo?
Transparência parcial e lacunas.
portal da Transparência incompleto, com inconsistência e morosidade nas informações. Propositais?
Outro fator que amplia o debate é a ausência de informações completas. Enquanto os valores dos uniformes estão disponíveis, o custo total do kit escolar completo não foi localizado, dificultando uma análise mais ampla sobre o impacto real por aluno.
Sem esse dado, fica comprometida a avaliação do custo-benefício global da política pública.
Legalidade não é sinônimo de legitimidade
É importante destacar: o processo segue formalmente uma modalidade legal — o pregão com registro de preços, previsto na legislação brasileira.
No entanto, cumprir o rito legal não encerra a discussão.
A administração pública está sujeita a princípios constitucionais como:
• Economicidade
• Eficiência
• Moralidade
• Transparência
E é justamente nesse ponto que o debate ganha força.
Conclusão: números que pedem explicação
A soma dos fatores — valores elevados, compra em escala, ausência de referência clara de mercado e histórico nacional de irregularidades semelhantes — cria um cenário que exige, no mínimo, esclarecimentos públicos.
Não se trata de acusação direta, mas de questionamento legítimo:
• Houve pesquisa de preços adequada?
• Os valores estão alinhados ao mercado atacadista?
• Existe justificativa técnica para os preços praticados?
Enquanto essas respostas não são apresentadas de forma transparente, os números falam por si.
Redator Chefe – Humberto Brassioli Corsi


