Vivemos tempos difíceis.
Tempos em que discordar parece ter se transformado em uma declaração de guerra.
Em que opiniões diferentes deixam de provocar reflexão para despertar hostilidade.
Em que o diálogo perde espaço para o confronto e o outro, simplesmente por pensar diferente, passa a ser visto como inimigo.
As guerras ocupam os noticiários.
A violência se naturaliza.
A intolerância encontra espaço até mesmo onde deveria existir acolhimento.
E, em meio a tudo isso, algo deveria nos causar especial preocupação: a facilidade com que o nome de Deus tem sido utilizado para justificar divisões entre os próprios seres humanos.
Em nome de Deus, condena-se.
Em nome de Deus, exclui-se.
Em nome de Deus, transforma-se o diferente em inimigo.
E, não raramente, em nome de Deus, pretende-se conquistar ou conservar o poder.
Talvez tenha chegado o momento de fazermos uma pergunta aparentemente simples, mas profundamente necessária:
Quando Deus se transforma em bandeira, quem fica do lado de fora? De quem é o Brasil?
É comum ouvirmos expressões como “O Brasil é de Jesus”.
Para muitas pessoas, essa afirmação representa uma manifestação sincera de fé, devoção e esperança.
E não há nada de errado em desejar que valores como amor, fraternidade e solidariedade estejam presentes em nossa sociedade.
Entretanto existe uma diferença fundamental entre desejar que uma nação seja inspirada por valores espirituais e pretender que ela pertença, política ou institucionalmente, a uma única religião.
A primeira é uma expressão legítima de fé.
A segunda pode representar um perigo à liberdade de todos.
Porque, se o Brasil pertence a uma única religião, qual seria o lugar daqueles que professam outras crenças?

E daqueles que não acreditam em Deus?
Seriam brasileiros de segunda categoria?
Evidentemente, não.
O Brasil não pertence a uma religião.
Pertence a todos os brasileiros.
O Estado laico não é inimigo de Deus
Como advogado e dirigente espiritual, considero essa distinção especialmente importante.
“A Constituição Federal de 1988 assegura, em seu artigo 5º, inciso VI, a liberdade de consciência e de crença, garantindo o livre exercício dos cultos religiosos e a proteção aos seus locais e liturgias.
O artigo 19, inciso I, por sua vez, impede que o Estado estabeleça cultos religiosos ou igrejas, os subvencione, embarace seu funcionamento ou mantenha relações de dependência ou aliança com seus representantes, ressalvada a colaboração de interesse público, na forma da lei.”
Essas disposições não foram criadas para combater a religião.
Foram estabelecidas para proteger a liberdade.
Um Estado laico não é um Estado contrário à fé.
É aquele que assegura a cada pessoa o direito de acreditar, não acreditar ou seguir a tradição religiosa que sua consciência escolher.
A laicidade não afasta a religião da sociedade.
Afasta a pretensão de uma religião dominar o Estado.
Quando a fé se transforma em instrumento de poder
A história demonstra que religião e poder político frequentemente caminharam juntos.

Em determinados momentos, essa aproximação contribuiu para iniciativas de solidariedade e construção comunitária.
Em outros, serviu para justificar perseguições, guerras e a supressão de liberdades.
O problema começa quando a convicção religiosa deixa de orientar a consciência individual e passa a ser utilizada para impor comportamentos a toda a sociedade.
Quando alguém afirma que determinada decisão política representa exclusivamente a vontade de Deus, coloca seus adversários numa posição perigosa.
Afinal, como discordar de alguém que se apresenta como representante da vontade divina?
O debate deixa de acontecer entre pessoas com opiniões diferentes e passa a ser apresentado como uma disputa entre aqueles que estariam ao lado de Deus e aqueles que estariam contra Ele.
Quando transformamos divergências humanas em batalhas sagradas, corremos o risco de retirar do outro até mesmo o direito de discordar.
E talvez seja justamente nesse momento que a fé, em vez de aproximar, comece a separar.
Deus não precisa de fronteiras
Sou umbandista.
Acredito em Deus e em sua presença em toda a criação.
Na maneira como compreendo a espiritualidade, Deus é uno, embora os seres humanos tenham desenvolvido diferentes nomes, símbolos, linguagens e caminhos para se relacionar com o divino.
Não pretendo que essa compreensão seja aceita por todos.
Ela é a expressão da minha fé.

Mas justamente por acreditar nisso, tenho dificuldade em compreender a facilidade com que tentamos estabelecer fronteiras para Deus.
Não acredito que Deus tenha nacionalidade.
Não acredito que pertença a um partido político.
Não acredito que possa ser reduzido a uma ideologia ou apropriado por aqueles que se apresentam como seus únicos representantes.
E, sobretudo, não acredito que seja necessário diminuir a fé de outra pessoa para demonstrar a grandeza da minha.
Deus não precisa ser propriedade de ninguém para estar presente na vida de todos aqueles que nele acreditam.
Antes de qualquer religião, a humanidade
Talvez este seja o ponto mais importante de toda essa reflexão.
Antes de sermos cristãos, umbandistas, judeus, muçulmanos, espíritas, ateus ou seguidores de qualquer outra convicção, somos seres humanos.
E essa condição deveria ser suficiente para que reconhecêssemos uns nos outros a mesma dignidade.
Mas parece que estamos nos esquecendo disso.
Temos aprendido a classificar pessoas pelas suas crenças, opiniões políticas, origens e diferenças, como se essas características fossem mais importantes do que a humanidade que compartilhamos.
Passamos a perguntar de que lado alguém está antes mesmo de perguntar como essa pessoa está.
E talvez aí resida uma das maiores contradições do nosso tempo: nunca tivemos tantos meios de nos conectar e, ainda assim, parece cada vez mais difícil nos reconhecermos uns nos outros.
A humanidade não pode ser uma consequência da religião.
Deve ser um compromisso anterior a qualquer diferença religiosa.
Não precisamos compartilhar a mesma fé para reconhecer a dor do outro.
Não precisamos acreditar no mesmo Deus para estender a mão a quem sofre.
Não precisamos concordar sobre a vida espiritual para compreender que a dignidade humana não pode depender de uma profissão de fé.
Se uma crença nos conduz à caridade, à compaixão e ao respeito, ela pode representar um caminho de crescimento espiritual.
Mas, quando é utilizada para justificar o desprezo, a humilhação ou a exclusão, precisamos questionar não apenas o discurso religioso, mas aquilo que estamos fazendo com a nossa própria humanidade.
O perigo de perdermos o outro
Vivemos um tempo em que palavras como guerra, inimigo, combate e destruição passaram a fazer parte de discursos políticos e, infelizmente, também religiosos.
O problema é que, quando passamos a enxergar o outro como inimigo, deixamos de reconhecer nele aquilo que também existe em nós.
Seus medos. Suas dores. Suas esperanças. Sua necessidade de ser respeitado.
A fé deveria nos ajudar a superar nossas limitações humanas, não aprofundá-las.
E aqueles que exercem liderança religiosa têm responsabilidade ainda maior, porque suas palavras podem construir pontes ou alimentar ressentimentos.
Não importa se estamos diante de milhares de pessoas ou de uma pequena comunidade.
Nenhuma liderança deveria utilizar o nome de Deus para retirar do outro sua dignidade.
Talvez o maior desafio de nosso tempo não seja convencer as pessoas a acreditarem no mesmo Deus, mas ensiná-las a reconhecer a humanidade umas das outras, mesmo quando suas crenças são profundamente diferentes.
Uma pátria de todos
Não desejo um Brasil sem religião.
Desejo um Brasil em que todas as religiões possam existir livremente.
Em que um cristão possa professar sua fé sem constrangimento.
Em que um umbandista possa usar sua guia sem receio.
Em que um judeu, um muçulmano, um espírita ou um praticante de qualquer outra tradição encontre o mesmo respeito.
E em que uma pessoa que não acredita em Deus tenha sua dignidade igualmente reconhecida.
Não precisamos construir uma sociedade em que todos pensem da mesma maneira.
Precisamos construir uma sociedade em que nossas diferenças não sejam suficientes para nos transformar em inimigos.
Talvez, diante de tantos conflitos, guerras e divisões, a maior demonstração de maturidade espiritual seja compreender que Deus não precisa ser transformado em bandeira política para estar presente na vida de quem acredita.
E que a fé, quando verdadeiramente comprometida com o bem, não deveria servir para levantar muros entre os seres humanos.
Afinal, uma nação não se torna mais justa porque seus governantes afirmam falar em nome de Deus.
Torna-se mais justa quando seus cidadãos são tratados com dignidade, independentemente da religião que professam.
Uma pátria não precisa pertencer a uma religião para que todas as religiões possam pertencer a ela.

Advogado – Almeida Prado Cattan Advocacia e
Pai de Santo do TUVLA – Templo de Umbanda Vô Lázaro de Aruanda

Tabloide 360 | Informação com Contexto
por Humberto Brassioli Corsi – Redator Chefe
⚖️ Transparência visual: Foto Divulgação – Utilizado referências de divulgação e composições editoriais produzidas ou adaptadas com inteligência artificial, identificadas como ilustrativas. As imagens geradas não constituem registros fotográficos dos acontecimentos. Fontes e créditos devem respeitar os direitos autorais.

