Não necessariamente porque perdeu a coragem.
Não porque deixou de acreditar.
Muito menos porque desistiu dos próprios princípios.
Às vezes, a pessoa simplesmente se cansa de entregar muito e receber tão pouco em reciprocidade.
Tenho pensado bastante sobre os caminhos que percorri nos últimos anos, as pessoas que encontrei, os projetos que ajudei a construir, ideias que começaram em conversas aparentemente despretensiosas e, depois, ganharam corpo, estratégia, comunicação, visibilidade e relevância.
Também tenho pensado nas promessas que foram feitas olhando nos olhos. Nas promessas financeiras, profissionais, políticas, de parceria, reconhecimento, continuidade e lealdade.
E principalmente na quantidade delas que simplesmente desapareceram quando já não era mais conveniente cumpri-las.
Durante muito tempo interpretei determinados episódios como fracassos.
Hoje penso diferente. Fracasso e sucesso são palavras pequenas demais para explicar certas trajetórias. Existem ações, escolhas, consequências e resultados.
O presente cobra aquilo que construímos no passado e prepara aquilo que encontraremos adiante.
Talvez meu erro tenha sido acreditar demais que todos funcionavam dessa maneira.
Eu sempre enxerguei a política como instrumento de transformação.
Posso discordar profundamente de alguém e ainda assim ajudá-lo em determinado projeto se acreditar que aquilo produz algum benefício coletivo.
Partido nunca deveria ser autorização para abandonar humanidade.Ideologia nunca deveria impedir diálogo.
Cargo nunca deveria transformar alguém em proprietário da inteligência coletiva.
E política jamais deveria significar apenas eleição.
A origem da própria ideia de política está relacionada à vida da comunidade, à pólis, ao espaço coletivo.
Política deveria tratar daquilo que fazemos para organizar nossa convivência.
Por isso continuo dizendo: A política não é suja.
Sujas podem ser as práticas de algumas pessoas que aprenderam a utilizá-la para benefício próprio.
A política não mente.
Pessoas mentem.
A política não dá calote.
Pessoas dão.
A política não abandona aliados quando eles deixam de ser úteis.
Pessoas fazem isso.
A política não promete reconhecimento para extrair trabalho, conhecimento, relacionamento e depois desaparecer.
Pessoas fazem.
É uma diferença importante.
Porque atacar a política seria atacar justamente um dos instrumentos capazes de melhorar a sociedade.
O problema começa quando alguns passam a tratá-la como projeto particular de ascensão.
Eu, talvez ingenuamente, fiz diferente durante muito tempo.
Parei minha vida para ajudar.
Construí projetos.
Criei estratégias.
Pensei comunicação.
Escrevi.
Articulei.
Estudei cenários.
Resolvi problemas que sequer eram meus.
Defendi pessoas quando seria muito mais confortável simplesmente permanecer em silêncio.
Não perguntei primeiro qual era o partido.
Perguntei qual era o problema.
Não procurei primeiro saber o que ganharia.
Procurei entender o que poderia fazer.
Há algo bonito nisso.
Mas existe também algo perigoso.
Porque uma virtude sem limite pode transformar-se em vulnerabilidade.
Foi uma das lições mais difíceis que precisei aprender.
Ser bom não obriga ninguém a ser ingênuo.
Ser solidário não significa trabalhar gratuitamente para quem pode pagar.
Ser leal não significa aceitar deslealdade.
Acreditar nas pessoas não significa entregar a elas o direito de nos usar.
Isso muda muita coisa dentro de mim.
Não quero perder aquilo que sou.
Quero melhorar o processo pelo qual aquilo que sou chega às outras pessoas.
Durante anos, aconteceram situações semelhantes.
2020,2021,2022,2023, 2024 e 2026. Mudaram personagens, eleições, projetos e circunstâncias.
Algumas sensações permaneceram assustadoramente parecidas.
Trabalho intenso.
Entrega.
Promessas.
Expectativas.
Distanciamento.
E, não raramente, a tentativa posterior de transformar justamente quem ajudou em responsável pelas frustrações acumuladas dos outros.
É confortável procurar a última gota quando ninguém quer admitir quem encheu o copo.
Talvez seja exatamente aqui que esteja minha metanoia.
Não a metanoia política que significa abandonar convicções ao sabor da conveniência.
Mas aquela transformação verdadeira de pensamento que obriga alguém a olhar para os próprios padrões.
Se algumas histórias continuam terminando do mesmo jeito, preciso alterar a maneira como elas começam.
Continuarei ajudando.
Mas haverá limites.
Continuarei criando.
Mas meu trabalho terá valor reconhecido.
Continuarei confiando.
Mas confiança será construída, não presumida.
Continuarei acreditando na política.
Mas não confundirei política com políticos.
Continuarei disponível ao próximo.
Mas não estarei mais permanentemente disponível para quem só se lembra de mim quando precisa de alguma coisa.Isso não é ressentimento.
É amadurecimento.
Há uma passagem atribuída ao ensinamento de Jesus, registrada em Mateus 7, que permanece desconfortavelmente atual: “preocupamo-nos com o pequeno cisco no olho do outro enquanto ignoramos a enorme trave que existe diante dos nossos próprios olhos.”
A humanidade parece ter aperfeiçoado essa contradição.
Há pessoas extraordinariamente rigorosas com os erros dos outros e surpreendentemente tolerantes com os próprios.
Faltam-te EMPATIA.
Exigem lealdade enquanto praticam conveniência.
Cobram compromisso enquanto descumprem promessas.
Falam de ética enquanto racionalizam os próprios interesses.
Exigem compreensão para suas falhas e condenação imediata para a falha alheia.
Talvez por isso inteligência sem caráter me impressione cada vez menos.
Título não me impressiona.
Cargo não me impressiona.
Dinheiro não me impressiona.
Quantidade de seguidores não me impressiona.
Mandato não me impressiona.
O que me impressiona são obras.
A coerência entre discurso e comportamento.
A capacidade de olhar para alguém que esteve ao seu lado quando você ainda não tinha absolutamente nada a oferecer em troca e dizer: “Eu me lembro.”
Talvez essa seja uma das maiores demonstrações de caráter.
Eu carreguei durante a vida outras batalhas que também me ensinaram alguma coisa sobre resistência.
Convivo com minhas particularidades; com TEA nível I, com TDAH, com minhas dores fortes, com limitações e características que fazem parte de quem sou. Enfrentei o câncer três vezes. E quem já atravessou algo assim sabe que existe uma pequena lembrança permanente de nossa própria finitude.
Você continua vivendo, trabalhando, sonhando e planejando, mas uma parte de você nunca esquece completamente aquilo que enfrentou.
Ainda assim, continuo aqui.
Criando – Escrevendo – Estudando – Pensando – Construindo – Errando – Acertando – Recomeçando.
E talvez isso explique um pouco da minha intensidade.
Tenho dificuldade de assistir passivamente a algo que poderia ser melhor.
Quando vejo um problema, começo a imaginar uma solução.
Quando vejo alguém com potencial, começo a imaginar caminhos.
Quando encontro um projeto, rapidamente começo a enxergar tudo aquilo que ele poderia se tornar.
Às vezes sou praticamente uma carreta desgovernada sem freio em direção à próxima ideia.
Isso já me trouxe resultados extraordinários.
Também me trouxe enormes prejuízos.
Preciso reconhecer os dois.
Porque inteligência sem autocrítica também pode virar arrogância.
E não quero transformar este texto num monumento à minha própria razão.
Eu erro. Já fui impulsivo. Já falei quando deveria ter esperado. Já confiei quando deveria ter verificado. Já insisti em pessoas que claramente demonstravam não possuir a mesma disposição comigo. Já permiti que relações profissionais fossem conduzidas pela afetividade. Já aceitei promessas onde deveria ter exigido acordos.
E certamente também machuquei pessoas pelo caminho.
Reconhecer isso não diminui aquilo que fizeram comigo.
Apenas impede que eu cometa exatamente o pecado que estou denunciando: enxergar somente o cisco do outro.
Mas reconhecer meus erros também não significa carregar os erros dos outros.
Há responsabilidades que simplesmente não me pertencem.
E chegou a hora de devolvê-las aos seus verdadeiros proprietários.
Sem ódio.Sem vingança.
Sem campanha de destruição.
Algumas pessoas talvez leiam estas palavras e se reconheçam.
Se isso acontecer, não precisarei escrever seus nomes.
A própria consciência fará o trabalho.
Talvez essa seja a única espada necessária.
Não uma espada contra alguém.Um espelho diante de cada consciência.
Porque no final das contas existe uma justiça silenciosa na trajetória humana.
Independente de crença – Essa Justiça é Divina.
Não aquela justiça romântica segundo a qual todo mau comportamento recebe automaticamente punição.
A vida não funciona assim.
Pessoas ruins também vencem.
Pessoas boas também perdem.
Injustiças permanecem impunes.
Promessas são descumpridas.
Dinheiro é perdido.
Amizades desaparecem.
Reconhecimento muitas vezes não chega.
Mas existe uma consequência inevitável: nós nos transformamos na soma das escolhas que repetimos.
É nisso que acredito.
Não quero que minhas experiências me transformem em alguém amargo.
Quero que me tornem alguém mais criterioso.
Não quero deixar de ajudar.
Quero aprender quem merece ajuda, em quais condições e até onde posso ir.
Não quero abandonar a política.
Quero continuar defendendo justamente a política contra aqueles que a diminuem.
Não quero parar de acreditar nas pessoas.
Quero apenas parar de acreditar nelas antes que seus atos me deem motivos para isso.
Talvez esta seja uma das grandes mudanças da minha vida.
Durante muito tempo achei que precisava provar constantemente aquilo que era capaz de fazer.
Hoje começo a entender que também preciso escolher para quem vale a pena fazer.
Meu conhecimento tem valor.
Meu tempo tem valor.
Minha experiência tem valor.
Minha capacidade de criar narrativas, compreender contextos, organizar estratégias e transformar ideias em projetos concretos tem valor.
Reconhecer isso não é soberba.
É responsabilidade comigo mesmo.
Porque existe uma pessoa que também precisa receber minha capacidade de cuidar, proteger e construir.
Eu.Por isso este texto não é despedida.
Também não é uma declaração de derrota.
Muito menos uma cobrança pública.
É um marco.
Algumas versões minhas ficam para trás aqui.
Aquela que aceitava promessa como pagamento.
Aquela que confundia amizade com compromisso profissional.
Aquela que acreditava que dedicação seria automaticamente reconhecida.
Aquela que permanecia disponível mesmo depois de perceber que a reciprocidade havia desaparecido.
Continuarei sendo intenso.
Continuarei dizendo aquilo que penso.
Provavelmente continuarei incomodando algumas pessoas.
Continuarei defendendo uma política que pertença às pessoas, e não aos pequenos projetos de poder daqueles que ocupam temporariamente alguma cadeira.
Mas existe uma diferença.
A partir daqui, minha generosidade terá limites.
Minha confiança terá critérios.
Meu trabalho terá condições.
E minha presença terá reciprocidade.
Não quero terminar esta vida sendo lembrado simplesmente como alguém que esteve próximo do poder.
Prefiro que minhas obras mostrem que tentei, dentro das minhas possibilidades, fazer alguma diferença na vida daqueles que passaram pelo meu caminho.
E se algum dia, quando eu já não estiver aqui, alguém encontrar estas palavras, espero que compreenda uma coisa que demorei décadas para aprender: ter um bom coração não dispensa ter bons limites.
A política continua sendo necessária.
A esperança continua sendo necessária.
As pessoas continuam sendo necessárias.
Mas nenhuma transformação coletiva vale a destruição permanente de quem tenta construí-la.Eu continuo acreditando.
Só não acredito mais da mesma maneira.
E talvez seja exatamente isso que significa amadurecer.
“Sou muito maior que qualquer convicção, ideologia, Partido Político. Sou muito maior que qualquer político ou até network.”
por Humberto Brassioli Corsi – Redator Chefe
Tabloide 360 – Informação com Contexto


