Durante muito tempo, pessoas com deficiência e outros grupos historicamente sub-representados estiveram presentes em todos os espaços da vida social, mas ausentes dos lugares que ajudam a construir referências coletivas de beleza, identidade e reconhecimento.
A questão nunca foi a existência desses corpos, mas a forma como eram vistos ou deixavam de ser vistos.
É a partir dessa reflexão que nasce “O Corpo Dourado da Vitória”, exposição virtual idealizada pela fotógrafa Kica de Castro.
A mostra reúne modelos com diferentes histórias de vida retratados por meio da pintura corporal dourada criada pelo maquiador André Lima, em uma série de imagens que convida o público a olhar para a diversidade não como exceção, mas como parte essencial da experiência humana.
O dourado é o elemento que conecta todas as obras. Associado tradicionalmente às medalhas, aos troféus e grandes conquistas, ele assume aqui um significado mais amplo.
Não representa apenas a vitória individual, mas o reconhecimento de trajetórias que durante décadas permaneceram fora dos espaços de visibilidade e que hoje ajudam a ampliar as narrativas sobre quem pode ser visto, celebrado e representado.
Entre os participantes está a modelo Ariete Angotti, que tem nanismo e identifica na exposição um retrato das transformações que vêm ocorrendo na sociedade.
Ariete Angotti, modelo com nanismo. Foto: Kica de Castro Maquiagem: André Lima
“Quando eu era mais jovem, quase não encontrava imagens em que pudesse me reconhecer. Hoje vejo pessoas com deficiência ocupando espaços que antes pareciam distantes. Esta exposição fala sobre pertencimento e sobre a importância de sermos vistos como somos”, afirma.
A modelo Valéria Camargo de Lima, mulher negra com vitiligo, também integra a mostra e destaca o impacto da ampliação das referências presentes na comunicação, na moda e nas artes.
Valéria Camargo de Lima, modelo com vitiligo. Foto: Kica de Castro. Maquiagem: André Lima
“Durante muito tempo, aprendemos a esconder aquilo que nos tornava diferentes. Hoje percebo que são justamente essas características que contam nossa história. Participar desta exposição é celebrar a liberdade de existir sem precisar se encaixar em um padrão“, diz.
Os depoimentos dialogam com um movimento cultural mais amplo.
Nas últimas décadas, debates sobre inclusão, diversidade e representatividade deixaram de ocupar espaços periféricos para ganhar relevância crescente na produção artística, na publicidade, na moda e nos meios de comunicação.
Embora os desafios persistam, a ampliação dessas presenças tem contribuído para transformar a maneira como a sociedade compreende a beleza, a identidade e o pertencimento.
Nesse contexto, “O Corpo Dourado da Vitória” não propõe um novo padrão. Sua força está justamente na recusa de qualquer modelo único.
Ao reunir diferentes corpos, origens e experiências em uma mesma narrativa visual, a exposição reforça a ideia de que a riqueza cultural de uma sociedade está na pluralidade de suas histórias e não na uniformidade de suas imagens.
Mais do que uma coleção de retratos, a mostra registra um momento de transição.
Um período em que a representatividade deixa de ser percebida como gesto simbólico e passa a ser compreendida como reconhecimento de uma realidade que sempre existiu.
No fim, o dourado que cobre cada corpo não cria heróis nem transforma pessoas em símbolos.
Apenas ilumina presenças que durante muito tempo permaneceram à margem do olhar coletivo.
Fotógrafa Kica de Castro pelas objetivas digitais de Bruno Mancuso.
“Porque algumas mudanças começam quando novos rostos passam a ser vistos. As mais profundas acontecem quando a sociedade compreende que eles sempre estiveram ali”, finaliza Kica de Castro.
por Humberto Brassioli Corsi – Redator Chefe
